| ARQUEOLOGIA
Atlântico Selvagem Associação |
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| A descoberta :
Numa tranquila tarde de Dezembro de 1996, 2 mergulhadores algarvios, José Augusto Silva e Miguel Galvão, decidem realizar mais uma imersão, desta vez numa zona rochosa nunca dantes visitada pela equipa. Desta forma introduzem no GPS uma marca retirada da carta de navegação do sotavento algarvio onde estava assinalado o referido recife. Chegados ao local, fundearam e iniaram a descida, verificando que estavam numa zona de areia, com a âncora do barco presa na única pequena rocha existente no local.O mergulho estava a realizar-se com um total desinteresse dada a monotonia do fundo de areia ,a fraca visibilidade e débil luminosidade,consequência dum rápido entardecer. No regresso, quase no final do mergulho, surge o brilho duma mancha de peixe que evoluía sobre um recife rochoso.Com uma observação mais atenta este recife revelou formas algo estranhas, regulares,simétricas; segundos depois a revelação extraordinária de grandes canhões sobre a estrutura consumava a descoberta. (ver "história do achado") |
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Os trabalhos arqueológicos:
O naufrágio foi declarado
às autoridades e ao Centro Nacional de Arquelogia Náutica
e Subaquática que iniciou as diligências para proteger e estudar
o local. A partir de 2000 o arqueólogo Jean Yves Blot passou a dirigir
os estudos arqueológicos no local, liderando uma equipa de técnicos
do CNANS e de mergulhadores locais.
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| A 1ª intervenção surge
em Maio de 1997 com a presença do director do Centro Nacional
de Arqueologia Náutica e Subaquática -CNANS, Dr. Francisco
Alves a liderar uma equipa que realizou uma mini-campanha de intervenção
preliminar para avaliação do achado .
Entre estes trabalhos iniciais e o ano de1999 foram realizados apenas algumas visitas pontuais ao naufrágio , resultando numa inventariação dos canhões que se encontravam à vista ,no registo fotográfico dos elementos mais relevantes,caso dos canhões e de 2 grupos de pratos concrecionados, e em algumas observações nas zonas circundantes. A partir de 2000, o arqueólogo subaquático Jean Yves Blot,colaborador do CNANS, passou a liderar uma equipa de trabalho que incluía mergulhadores locais e técnicos do CNANS. A partir desse momento a dinâmica de trabalho gerada deu origem a uma arqueologia subaquática inovadora criativa e altamente participada. Na campanha de Junho de 2000 iniciaram-se os trabalhos de trilateração/cartografia vecorial do local, estudaram-se com pormenor as peças de artilharia visíveis, fizeram-se pesquisas que permitiram descobrir numa área adjacente ao núcleo central ,na direcção sudoeste ,uma série de novos canhões, o que permitiu construir um mapa com a dispersão das peças encontradas e assim facilitar a comprensão do naufrágio. Foi também realizado um pormenorizado registo fotográfico e vídeo de todo o naufrágio, incluindo o núcleo central e as peças isoladas, com destaque para os canhões e pratos. No final de Agosto de 2000, o sofisticado navio de prospeção instrumental Robo, pertencente ao americano George Robb, passou por Faro A no quadro da missão CNANS/Robo2000. Realizou-se sobre Faro A um varrimento com sonar lateral e magnetómetro,o que permitiu obter uma imagem sonar georeferenciada do local . No Inverno de 2000, o arqueólogo Mário Jorge Almeida,do Museu Nacional de Arqueologia, com apoio de elementos do CNANS , levantou uma pilha de 7 pratos concrecionados que estavam à vista mas presos numa estrutura do naufrágio. |
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| 1º esboço de Faro A realizado em 1996 por José António Cavaco, num mergulho com visibilidade de 3m | Mosaico fotográfico de Faro A realizado por José Augusto Silva |
| Em 2002 realizou-se outra campanha, liderada pelo arqueólogo Jean Yves Blot ,com a participação de técnicos do CNANS e de mergulhadores locais.Nesta campanha completaram-se os trabalhos de trilateração, mediram-se pormenorizadamente os canhões,escavou-se uma quadrícula com 9 m2 na parte sul do núcleo central, utilizando-se para tal uma sugadoura.Esta sondagem revelou a presença dispersa de pequenas concreções ferrosas (pregos e cavilhame).Depois de rigorosamente assinaladas num mapa da quadrícula estas concreções foram levantadas, fotografadas,desenhadas e submetidas a raios x.Posteriormente parte delas foram devolvidas ao seu local de origem.O núcleo central do naufrágio foi fotografado sequencialmente,o que permitiu a posterior concretização de um mosaico fotográfico. Para além destes trabalhos mais específicos, fizeram-se prospecções em redor do naufrágio,com a descoberta e localização de novas peças e canhões e realizou-se uma grande recolha de imagens fotográficas e vídeo de todos os acontecimentos.Para a realização de um estudo pioneiro sobre a biologia de um naufrágio foi convidada uma equipa de investigadores da Universidade do Algarve, liderada pelo Dr. Jorge Gonçalves. |
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| Na campanha de 2003 , igualmente orientada pelo arqueólogo Jean Yves Blot, realizou-se uma sequência exaustiva de medições transversais do núcleo central do naufrágio com o objectivo de se construir o seu modelo tridimensional . Foi feita também uma prospeção meticolosa numa área definida fisicamente por uma quadrícula construída com cabos graduados de 5 em 5 m,que se estendeu na direcção 270º por 100 m e na direcção 360º por 50 m. Dentro desta área registaram-se inúmeras peças de artilharia que estavam desenterradas e também diversas peças metálicas subterradas ,apenas detectadas com a utilização de 2 detectores de metais com os quais se varreu a área.Grande parte das peças encontradas foram referenciadas, medidas e fotografadas.Este trabalho contribuiu substancialmente para aumentar o conhecimento sobre a dispersão do naufrágio.Nesta campanha foram encontradas inúmeras peças originais , caso de uns apoios em ferro com forma de grilheta, uma culatra partida, uma âncora, um bocado de madeira. Simultaneamente confirmaram-se distâncias e medidas de objectos, registaram-se imagens da estrutura, dos pormenores e dos trabalhos. |
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| Uma pilha de pratos...
De todos os objectos identificados na exploração do sítio arqueológico de Faro A, era nos pratos levantados do local que residiam as maiores esperanças de obter informações concretas sobre o naufrágio. A pilha de pratos fortemente concrecionados foi levada para os laboratórios do CNANS onde foi tratada pelos técnicos P.Gonçalves e Tissot ,segundo um processo inovador : o desconcrecionamento por criogenia ( imersão em azoto líquido) , sugerido por I. Macleod (director do laboratório de conservação do Museu Marítimo da Austrália Ocidental).A limpeza em laboratório revelou marcas de fabricante na periferia dos pratos,constituídas por 2 letras capitais-W e H seguidas por 2 estrelas.Após inúmeras investigações,as marcas acabariam por ser idntificadas por uma conservadora de Stratford- -upon-Avon que as relacionou com pratos de estanho provenientes da herdade de Mount Edgcumbe, na Cornualha, com uma datação próxima de 1675. Posteriormente a peritagem de Jan Gadd,eng. e metalurgista sueco residente em Inglaterra, conseguida a partir das fotografias de José Paulo Ruas ,realizadas no Instituto Português de Arqueologia (IPA), permite datar os pratos das últimas décadas do séc.XVII. Um exame mais detalhado das fotos leva ainda o perito a concluir que os pratos eram novos,tratando-se de carga e não de utensílios domésticos dos oficiais.O exame de marcas de fusão do estanho num prato colocado no topo da pilha permite constatar que o navio foi afectado pelo fogo. |
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foto Pedro Gomçalves,CNANS |
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foto José Paulo Ruas IPA |
foto Pedro Gonçalves,CNANS |
| Fragmentos de argila...
Durante a desmontagem da pilha de pratos retirados de Faro A e tratados nos laboratórios do CNANS,sugiram entre as concreções calcáreas uma série pequenos fragmentos de argila .Uma vez reunidos pelos técnicos de conservação ,foi possível reconstituir a parte superior da estreita fornalha de um cachimbo de argila. A observação do fragmento por parte do perito britânico David Higgins leva-o a situar o cachimbo numa data entre 1690 e 1710, com uma origem britânica.Pela sua fragilidade e brevidade de período de uso ,o cachimbo de argila constitue um excelente "fóssil director" dos sítios arqueológicos. |
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foto laboratório do CNANS |
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| Um navio perdido no fundo...
O recife artificial em que se transformou o naufrágio,com cerca de 20 m decomprimento e 8 de largura,é constituído por uma grande quantidade de barras de ferro concrecionadas,dispostas longitudinalmente umas sobre as outras de uma forma desordenada.Um exame detalhado desta carga metálica,incluindo os canhões de ferro que assentam sobre ela, permite concluir que o navio "aterrou" no fundo com alguma velocidade,ligeiramente inclinado pela proa e sobre o seu flanco de bombordo,o que explica a assimetria da distribuição dos vestígios. .Verificou-se que por um acaso físico-químico,a carga metálica ficou corroída e imobilizada debaixo das concreções calcárias antes que a totalidade do casco de madeira estivesse decomposto.O recife artificial de hoje reflecte,com alguma imprecisão,os volumes do fundo do navio aí perdido.Na campanha de 2003 foi realizado um registo tridimensional exaustivo do núcleo principal de Faro A,com integração na rede de trilateração ,pelo que se obteve um rigoroso modelo tridimensional. |
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modelo tridimensional realizado por Tiago Fraga e Randal Saski |
| Um grande acontecimento naval...
O feixe convergente de datações dos objectos mais relevantes,pratos e cachimbo de argila, as marcas de incêndio a bordo,consubstanciadas no aparecimento de um prato de estanho parcialmente fundido ,relacionadas com o facto de em documentação de arquivos conservada no Public Record Office de Londres ser assinalada a perda ,por incêndio,entre Faro e Quarteira, de vários navios de comércio britânicos pertencente à famosa frota de Esmirna ,levam a credibilizar fortemente a hipótese de Faro A ser precisamente um destes navios. |
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"...Domingo de manhã foram vistos cinco navios a arder perto de Faro, e que se supunha serem alguns dos navios anglo-holandeses de Esmirna,muitos fardos de mercadorias sendo vistos a flutuar no mar e ... na costa perto de Faro" (Junho de 1693)
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| Reprodução de manuscrito do Public Record Office e tradução livre : investigação levada a cabo por Gonçalo de Carvalho |
| O desastre da frota de Esmirna...
Um comboio com cerca 400 navios mercantes vindos do norte da Europa com destino ao porto Mediterrânico de Esmirna, maioritariamente constituído por navios ingleses e holandeses , protegido por 25 navios de guerra comandados pelo Vice-Almirante inglês Edward Rooke foi atacado,a 27 de Junho de 1693 ,perto de Lagos ,pelo Almirante francês Tourville,que comandava uma frota de mais de 70 navios de guerra. Segundo os registos , 57 navios mercantes foram capturados e muitos outros foram incendiados e afundados pelas próprias tripulações para não caírem nas mãos do inimigo. As fugas, perseguições, batalhas, afundamentos aconteceram ao longo da costa algarvia nesse final de Junho de 1693, dando origem a um dos maiores desastres navais jamais ocorridos e a uma das maiores crises políticas latentes entre as grandes potências europeias. |
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pintura de Willem Van de Velle, the Younger |
| 300 anos depois é com grande paixão
pelo mar e pela aventura que mergulhadores, arqueólogos engenheiros,
matemáticos,biólogos, investigadores dos mais diversos ramos
da ciência, gente sabedora de todos os ofícios ,assim
como diversas instituições nacionais e estrangeiras
trabalham "com alma" para que se comece agora a compreender o que foi encontrado
em Dezembro de 1996.
Para que esta bonita história possa ser conhecida pelo público em geral , o arqueólogo Jean Yves Blot elaborou um extraordinário guião para uma exposição - Faro A : retrato de um desconhecido - que está a ser organizada pelo Museu Municipal de Faro e pela Associação Atlântico Selvagem e que será apresentada em Dezembro de 2007 no Museu Municipal de Faro,com itinerância prevista para outras cidades nacionais e europeias. |